domingo, 27 de dezembro de 2009

O tom

Ontem troquei dois scraps com um rapaz que acessou o blog. Ele diz ter se descoberto HIV+ mais ou menos na mesma época que eu e que se contaminou da mesma forma também, sexo oral.

Em apenas dois scraps não dá pra saber muita coisa mas me chamou a atenção pelo fato dele ter tido algo como "eu te entendo, passo pelo mesmo, mas de forma menos dramática".

O blog acabou sendo, desde o minuto zero, a válvula de escape. E por mais que a descoberta da sorologia seja sempre algo dramático pra quem passa por isso, talvez eu esteja mesmo expondo as coisas todas aqui num tom diferente de como elas realmente são.

A vida tem continuado. Há risos, pessoas, obrigações, processos, faculdades, escolhas, diversão. Tem muita coisa acontecendo. Coisas boas, ótimas, extraordinárias também, claro. (rs)

A sensação de fracasso ainda é imensa. De que fracassei no estilo de vida que eu sugeria e alardeava como algo moderno, sensato e inofensivo. De que não há problema em transar com uma pessoa diferente por semana, desde que se use preservativos. Até porque, até então, quem já havia pego HIV fazendo sexo oral? Provavelmente milhares de pessoas. Elas até estão por ai, como agora sei. E eu que achava que estava cumprindo com as regras, seguindo o protocolo. Era mais.

Inegavelmente uma parte de mim morreu. Ou "já morreu". A(s) outra(s) eu vou cuidar bem demais! Eu tento e tenho. Para que dê frutos a ponto de compensar a parte perdida.

Acabou uma festa, sim. Logo, logo começa outra que pode ser até melhor. A melhor.

sábado, 26 de dezembro de 2009

Sub-surto

Fui tomado esses dias por um sentimento de incapacidade e impotência. Tudo muito intenso. Pensei em desistir de tudo, que nada vale a pena, algum esforço, qualquer sacrifício... e ao mesmo tempo não pude deixar de lembrar do muito amor que recebo de poucas pessoas. E no quão covarde e injusto da minha parte seria eu desistir, eu parar.

Tem sido difícil. Olho no espelho e penso "AIDS". Por mais que eu saiba que isso é uma forma de auto-preconceito.

Ah, ironias do destino: INACREDITÁVEL como uma ou outra pessoa reapareceu agora na minha vida propondo namoro sério! Eu penso "mas... mas... justo AGORA???" - é foda! (rs)

Melhorando meu humor e meus pensamentos, espero.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Natalidade

Então é natal... e eu não consigo entrar no clima natalino pela primeira vez em minha vida. As pessoas todas vêm me abraçar, desejar os seus "feliz natal!" e eu sorrio sem graça.

Antes, havia empolgação, festa, confraternização. Agora, esse princípio de gripe que mais parece sre manifestação psicológica, somatização. A vontade é de me sentar num canto da sala durante a festa e passar a noite inteira lendo qualquer coisa que me faça esquecer que esse vai ser o primeiro natal com HIV.

Quantos outros virão?

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Night Fever

Nem é a música dos Bee Gee's. Não sei se numa reação do psicológico à taxa de imunidade/carga viral do meu primeiro exame, ou por alguma coincidência irônica, estou com febre, "corpo mole", dores no corpo. Típica gripe. Pode?

Dai eu viajo. Imagino minha mãe correndo comigo, marmanjo, pra um hospital. Eu tendo que contar pro médico, na frente dela, que sou soropositivo. Ou mais, já imagino eu morrendo antes d'ela, ela tendo que enterrar o filho aidético.

Dai corto o drama. Pus uma comédia pra rolar no DVD. Não fosse o calor que a febre está me dando, tudo normal. E rio. Mas que se minha mãe tiver que enterrar um filho, que não seja por algo tão idiota quanto uma AIDS.

E sem mais pensamentos do tipo "ah, não, mas logo eu que fiz tudo certinho! Ninguém que eu conheço faz sexo oral com camisinha e mesmo assim eles não tem HIV!" com birra e beicinho.

Amostra

Os resultados dos primeiros exames específicos ficaram prontos.

Nem de longe lembram a simplicidade de um "não reagente" que eu lia dando os ombros com um sorriso de desdém do tipo "óbvio, eu já esperava isso, faço tudo de acordo..."

É um sem fim de números, taxas, comparações... pouca coisa que eu realmente consiga compreender sozinho. Fora a preguiça do tipo "porra, antes eu não tinha que me preocupar com isso". Sim, rola uma negação.

A vida social anda meio pesada. Tá complicado conviver com o estresse que eu finjo que não existe. E acima disso, há as cobranças minhas, as cobranças dos outros, pessoas precisando de ajuda, de atenção, de socorro...

A pressão não seria menor se as pessoas todas com as quais convivo soubessem da minha condição. O suposto preconceito, sim, creio. Não de todos mas...

Durmo e acordo todos os dias com o vírus tatuado e sorridente, muito do exibido, na minha frente.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Comprometido

Analisando, nunca me dei bem com relações a longo prazo. Imaginar que vou ter que conviver com algo para sempre, até o fim da vida, me tira do sério, irrita. Um tanto disso é preguiça. Abrir mão da vida sempre parece mais fácil. Só que "fácil" não traz evolução.

Quando é que vão trazer a cura mesmo?

sábado, 19 de dezembro de 2009

Saliva

Dias comuns. Muito envolvido com um projetinho pessoal, não estava sequer percebendo que o ano praticamente acaba nas próximas duas semanas.

Há momentos longos em que me esqueço completamente que tenho o vírus. E penso raso como fazia antes.Volto à realidade: não posso mais me dar ao luxo de perder tempo pensando raso. O planejar, o preparar, era algo que não fazia parte da minha vida. Agora, VAI TER QUE SER.

Nunca consegui me imaginar no futuro. Ou imaginar meu futuro, digamos assim. O certo é que uma coisa eu sentia sempre... "futuro? eu sozinho, tomando conta de mim". Isso era quase uma constatação automatica, algo que eu sentia. Agora vem o medo. Pois se imagino uma vida saudável (garantia que ninguém tem, pois vai que tu perdes as pernas ou fica tetraplégico numa merda de acidente qualquer?), imagino essa vida saudável sem depender da ajuda de outra pessoa. Já uma vida com AIDS... pelo menos alguém pra conversar a respeito, pra não enlouquecer.

É psicológico, eu sei, vão dizer... mas o psicológico deve ser responsável por grandes quedas de quem tem HIV. A notícia em si, os termos técnicos todos, a frieza com que certos "profissionais" da saúde te tratam, a mudança de rotina, a alteração que se tem de tempo, duração de vida, planos, projetos... enfim, TUDO passa pelo coador da mente. Às vezes filtra bem, às vezes ali fica impregnado de sujeira ("uma baba grossa e escura, essência do meu tormento"). E até ficar limpo de novo... ah, ai vão-se horas que duram dias, dias que duram semanas...

Procurando postar algo mais alegre. Talvez eu dê a entender que parei com a minha vida, quando na verdade tudo segue igual antes. Exceto pelo tudo e tanto que mudou :) Quero dizer que, obviamente ter que conviver com o vírus e com a idéia de "tenho AIDS" é um puta baque. Mas há os amigos, festas, risos, alegria, diversão.

Espero que a vida seja muito da mesma, maravilhosa como ela sempre me foi, até o dia que eu não viver mais.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Sangue

Coleta para os primeiros exames aprofundados.

Ao todo, 25 exames. Desses, 3 custaram r$ 2oo,oo. Os outros 22 todos, juntos, não chegam a r$15o,oo pelo plano de saúde. De todo modo, enfim, lá se foram os presentes de natal de muita gente ;p uma causa justa?

A ida a um novo laboratório significa mais pessoas a par da minha nova condição. Conhecendo o número de pessoas que conheço, na minúscula cidade em que vivo, isso quer dizer que é grande o risco de que algum conhecido venha a ter conhecimento de que sou agora soropositivo.

"Fight AIDS, not people with AIDS" diz um vídeo que assisti há um tempo. Na hora de colher o sangue, a mocinha deu uma olhada nos pedidos de exames e fez uma cara de "putaquepariuquemerdaéessa??". A senhora no balcão de entrada, que recebe, cadastra e direciona a gente soube disfarçar melhor. Ou já está acostumada e tem mais traquejo pra não estressar gente melindrosa.

Alguns resultados só vão sair dia 30, véspera do último dia de um ano que, simbolicamente, é extremamente significativo. Outros, amanhã mesmo. Minha rendição, subsequente confissão e cumprimento de pena... sei lá quando.

domingo, 13 de dezembro de 2009

Dias Depois...

Acho que hoje, sei lá porquê, foi o pior dia.

Em casa me sinto um sujo. Há visitas, bebês, crianças, idosos. Não quero ficar perto. Não tem alegria hoje. Não sei o motivo. Não quero ficar perto.

Será que a possibilidade de um futuro "limpo", promissor, dessas crianças me incomodou? Será que sinto que desperdicei a parte que me cabia? Os idosos são a prova de que chegaram, eles e muitos outros, onde eu, provavelmente, não chegarei?

Se meus pais viverem muito, passarem dos 90 anos, eu terei quase 70. Ou teria.

Até eu morrer, terei que viver com um segredo espinhoso, feio, sujo. Os estigmas de um aidético. Pra onde eu varro isso aqui dentro de casa, já que não posso me desfazer disso? Esconder... me tira o sono. Ter me tira o sono. E já havia outras coisas tantas e todas que me roubavam o sossego em doses fartas. Somam-se. Multiplicam-se. e Não divido com ninguém. (Sub)traio-me.

Torço por uma morte digna e justa antes do tempo que o vírus venha me tirar a vida. Não quero deixar a um vírus esse gosto.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

O Ser

Tem horas que eu me esqueço (de novo) que tenho HIV. Ou como prefiro dizer, tem horas que eu me esqueço que tenho AIDS (não vou entrar no detalhe da diferença).

Ah, mas quando eu me lembro...

Sempre desejei uma cura para a AIDS, desde que se fala disso em sala de aula, quando a gente era criança ainda. Mas acho que eu desejava como quem deseja a paz mundial, como as candidatas a miss desejam. Pensando "porra, paz mundial com o mundo de fome, guerra, sacanagem, putaria, jogatina, traição e malandragem em que nós vivemos?? piada!". Por ai...

Agora, preciso de uma cura. A idéia de um prazo de validade ou problemas sazonais, restrições, controles... tudo isso me desanima, mais do que desespera. Paz mundial, como a vejo, também é assim... algo distante, trabalhoso e que me tira o ânimo quando percebo o quanto falta. Mas não tem nem o estigma de um preconceito, nem me afeta o dia-a-dia tão diretamente e intensamente (de modo dramático) quanto a merda de uma AIDS.

Enfim... nem creio no prazo de validade. Nem acho que, daqui um tempo, quando eu tiver que tomar remédios, os medicamentos estejam melhores que os de hoje. Vive-se, parece, o ápice da coisa toda, onde os soropositivos são vistos como idiotas que se deixaram contaminar. Que aguentem. ÓBVIO que não quero ser visto assim.

Ademais, tenho um amigo pra tomar conta (dele). Uma vida pela frente. Continuar tentando ser uma pessoa boa para que isso simplesmente toque as pessoas, mude algo, faça alguma diferença. Mas é bizarro tentar continuar remando o barco e, toda vez que alguém me abraça, eu pensar "tá abraçando uma embalagem de veneno..."

Pior é o pensamento de que eu não transava sem camisinha. Sexo oral sem camisinha É sexo sem camisinha. Logo eu tão instruído, tão precavido... "logo eu"... piada.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

As Estações... E Nada Mudou... (Mas eu sei que... Alguma Coisa Aconteceu...)

Às vezes sinto como se nada tivesse acontecido. Nada mudou. Não fica mais martelando em minha cabeça (não o tempo todo) a frase "tenho AIDS" ou alguma outra parecida.

De todo modo, a situação pede atenção. Exames a serem realizados, ou quando olho pra alguma pessoa que me atrái (dai penso "proibida pra mim" - agora todo mundo é).

Hoje, depois de muito tempo, entrei de novo no meu perfil fake do Orkut e revisitei comunidades, tópicos e perfis. Dai volta até a vertigem. Como se eu quisesse enganar a mim mesmo, esquecer que tenho o que tenho.

Li uns tópicos bárbaros (no pior sentido da palavra) sobre a dificuldade de ir para um país estrangeiro sendo portador do HIV. COMO ASSIM??? Diabéticos podem? Cardíacos também? Tudo uma questão de transmissão ou de manutenção e custos?

Enfim, dei adeus ao sonho de morar num dos castelos da Disney.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Cuanto lo siento (?)

Tirando o fato de que de dez em dez minutos é como se uma luz vermelha, daquelas de sirenes policiais, acendesse na minha mente dizendo "tenho AIDS", eu já faço minhas obrigações todas normalmente.

Vou fazer uma série de exames e é bem capaz que só daqui um tempo eu tenha que "sentir" que tenho HIV: quando remédios forem prescritos.

No mais, a vida tem sido a canoa num mar menos revolto. Há as marolas. Toda uma sorte de tubarões e outras ameaças abaixo. E que não venha nenhuma tempestade.

Planos e planos. Nada mais ou melhor do que antes. A sequência, ou falta dela, de sempre.

A quem por acaso tenha passado aqui e visto o desespero inicial: foi real. Foi intenso. É, de certa forma. Mas todos estavam certos, a gente se habitua, se acalma, se recolhe e se entende.

Muita coisa, tanto, vai mudar. Em atitudes, principalmente. Por ora, ninguém está disponível. Todo cara que vejo e penso "hm, que interessante..." sou logo tomado pelo pensamento de "não posso estragar a vida dele por conta de um prazer meu".

E tá que tem gente que trepa e se arrisca bem mais do que eu e nem tem nada mas... agora sou mais responsabilizado ainda pela minha saúde e pela de quem eu envolver.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Infecto

Hoje à tarde fui ao consultório do infectologista do meu amigo. Devidamente acompanhado do mesmo, entrei na sala dele e fui muito bem recebido. Ele é simpática, prática, competente, profissional e até, de certo modo, paternal.

Ouvi a tudo que ele disse. Anotei pouco mentalmente. Porque muito do que foi dito, eu já sabia, ou imaginava, ou já conhecia. Mas também porque fiquei meio que viajando na coisa do "putz, vou frequentar essa sala por quantos anos? E quando ele se aposentar? Vou durar tanto?" - e, claro, meu amigo já passou pelo grosso, pelo que vou passar.

O infectologista foi também a primeira pessoa a dizer algo do tipo "mas quanto azar..." quando eu contei sobre o fato de que eu, muito provavelmente, adquiri o vírus através de sexo oral. E não fez questionamentos estapafurdios do tipo "ah, mas fala sério! Foi por sexo oral mesmo? Certeza??"

De todo modo, me passou uma lista imensa com pedidos de exames. Meu plano de saúde não cobre integralmente, então imagino que - como eu disse no post anterior - viver vai custar mais caro. Desde que eu viva... tudo bem.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Falso "Falso Positivo"

Às vezes me vem a idéia de que meu exame, mesmo após duas coletas, deu falso positivo.

Corri pra ler sobre a posibilidade e é quase inexistente. Western Blot não falha.

Talvez eu esteja ainda vivendo uma fase de negação.

Só sei que durante o dia alterno momentos de "daqui por diante vai ter que ser assim" e "Meu Deus, como vai ser minha vida agora?". Falta ânimo para tudo. E por mais que eu me encha de trabalho para manter a mente ocupada, basta eu olhar para alguém da minha família pra que na mesma hora eu me lembre que tenho AIDS (ok, ok... tenho HIV - eu sei bem a diferença entre ter AIDS e ter HIV).

Chega um dia em que, mesmo tomando remédios, já tratando, esse tipo de pensamento não tome conta de 90% do nosso dia?

Sexo

Sábado à noite saí e trepei. Usando preservativos, ÓBVIO.

Inevitavelmente, após a transa, fiquei muito tempo pensando como pôde ser? Sim, eu acabara de transar como manda o protocolo. Usei preservativo, não me expus a secreções ou nada do tipo. Se eu transei exatamente dessa mesma maneira nos últimos 18 meses, como foi que se deu? Como contraí o vírus?

De todo modo, logo após a transa, fui para casa pensando em tudo. E esse "tudo" é agora tão vasto, amplo, pesado, cor e gosto de chumbo.

Penso muito em quando eu era um bebê, ou uma criança pequena. Minha mãe lavando meus pézinhos, me assistindo com um olhar doce, cheio de amor e ternura. Sinto que traí de maneira horrenda todo esse sentimento, toda essa preocupação. Por mais que eu tenha me protegido.

Fazendo as contas com gastos vindouros. Viver vai custar mais. Leia e entenda como quiser.

sábado, 28 de novembro de 2009

Silêncios, loucuras, frustrações e reconhecimentos

Ficar em silêncio tem sido um pouco torturante. Agora a TV fica ligada o tempo todo, ou estou em constante atividade para me ocupar a mente de outros pensamentos.

Ontem aconteceu algo "interessante": por um motivo um tanto quanto besta, fui demitido do meu serviço. Ao argumentar com o escalão superior, tive uma crise de choro. Foi a primeira vez que chorei desde que soube do meu resultado. Mas nem creio que nesse chorar tivesse uma gota a ver com a doença e o conhecimento dela. Foi mais um choro tipo "porra... mais isso agora?"...

O lado vantajoso foi que isso me ocupou a cabeça mais do que o pensamento constante sobre minha situação sanguínea. Até a hora que sai do meu serviço aos soluços, na minha cabeça ficava repetindo a frase "eu tenho AIDS, eu tenho AIDS, eu tenho AIDS" como se fosse um mantra. Sei que deve ser meu cérebro reagindo, e todas aquelas coisas que eu já vi num episódio de "Os Simpsons" (fases de negação, aceitação e sei lá mais quantas).

Há ainda o outro lado um pouquinho bizarro da coisa toda: tenho tido conversas incríveis com um dos meus amigos soropositivo. Digo, conversas ao vivo, presenciais, olho no olho, amizade verdadeira. Essas (conversas) são extremamente benéficas porque é quando eu mal me lembro que tenho a doença.

O mais incrível é que quando estou conversando com ele, meu agir é meio eufórico. Como se nessas horas eu estivesse expulsando todos meus demônios. Falo demais, gesticulo um tanto quanto intensamente... talvez uma tentativa de suplantar qualquer idéia ruim.

Outra coisa: parei de visitar tanto as comunidades do Orkut. Ler tanta coisa sobre situações pelas quais eu ainda nem estou passando, o "excesso" de informação, digamos assim, estava me deixando tonto, frenético. Fora um comentário critico ou outro do tipo "basta descobrirem que estão com HIV que passam a ser pessoas boas". Ué, então não é válido se tornar uma pessoa boa diante de tal situação? Quer uma situação mais extramada que essa? Ok, vou "comprar" câncer no mercadinho da esquina e me tornar Jesus Cristo.

E foi dormindo das 13h às 20h30 que eu fechei a conta da semana mais intensa da minha vida. A noite começa com uma festa de confraternização na casa de uma funcionária da empresa que me demitiu. Não soa irônico que eu vá festejar lá depois de ter sido demitido? Mas estou muito "ligado", depois de tanto sono, pra aguentar minha cabeça numa noite de sábado em casa.

Desculpem o peso dos texto (deve ser porque peguei AIDS). Em breve escrevo piadas aqui.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Victorious

Conversei pessoalmente com um amigo +. Foi necessário e tirei o peso do mundo das minhas costas. A ele serei grato, mais grato, pela vida inteira. Pelo que de bom há por vir.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

One Way Ticket

Por enquanto, é como se eu soubesse que ganhei uma passagem pra Disneylândia. Estou fora de órbita, mas operante. Funcionando. Quando eu entrar nas rodas gigantes e montanhas-russas (remédios e efeitos colaterais) acho que até essa semi-euforia "apesar de tudo estou vivo e agora tenho que aproveitar mais" passa. E daí, segura depressão. Ou era "segure A depressão"?

Não chorei uma gota. Meus olhos, porém, "marejaram" quando imaginei a reação de um meu irmão se eu contar a ele. Ele está a par da minha preferência sexual e, até então, me tinha como referência para "homossexual não-promíscuo", ou "gay não-marginalizado por uma doença marginalizante".

Pois é...

Ontem, quase ao mesmo tempo que eu me confirmei contaminado, uma outra pessoa entrou no Orkut a procura de ajuda e consolo porque acabava de se ver na mesma situação. Incrível como ele parecia estar 300 vezes mais desesperado que eu. Perto dele, eu era a calma em pessoa.

Aconselhei até onde pude, até porque diferente dele eu tenho a sorte de conhecer outras pessoas que passam por isso. Tirei de base e com isso estou um tanto quanto tranquilo quanto à dúvidas mais simples... sabia que um dia essa coisa de aprender observando os outros iria me valer muito.

Hoje tenho que ligar no laboratório e aproveitar a oferta que fazem nesses tipos de exame, de nos "presentear" com um exame mais completo sem ônus. Algo do tipo "você está morrendo, baby. Tome aqui uma balinha de brinde, tó!" ¬¬

Mas enfim, preciso saber em que pé estou... e firmar o pé, pisar firme.

Hoje no serviço me sinto mais participativo. Preciso aproveitar todo o tempo que tenho, as pessoas a minha volta. Dar o melhor de mim. Enquanto estou por aqui. por mais que esse "enquanto" possa durar até 35, 40, 50 anos mais.

Torto

Acordei pensando: LEVANTA, AIDÉTICO!

Depois li mais uma vez que, se eu me tratar direitinho, tenho mais 35 anos de vida. Morro antes dos 70, porém. Meus pais talvez ainda estejam vivos e presenciem tal babaquice.

Antes do infecto, preciso mesmo marcar um psi. Quero todos os anti-depressivos do mundo. Ou qualquer coisa que me faça concentrar no que é importante.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Bingo!

"HIV I e II: REAGENTE"

Frio assim. Escrito desse jeitinho, tudo em maiúsculas. Acessei o site do laboratório e lá estava. Não me ligaram, não mandaram mensagem, nada. Que bom, por um lado. Eu estava ensaiando uma peça teatral! Ia desmaiar quando me dissessem algo como "infelizmente seus exames deram positivo. Você tem "A AIDES!". Dai ia voltar pra casa chorando, dirigindo e enxugando as lágrimas com um lenço umidecido. Vergonhoso.

Começa a confirmação do fim, de que não sou imortal, de que a morte é algo distante. E, daqui por diante, as escolhas e decisões todas vão ter um peso imenso. Desde se "me trato ou não?" até "Hm, vou trepar ou não?".

Hoje, por coincidência, na brincadeira de amigo oculto do serviço, recebi um bilhetinho com um pacote de preservativo dentro. Profético? irônico?

Tenho sentido tonturas desde ontem. Sei que é meu cérebro tentando me defender, me "dopando". Podia parar: não há mais necessidade. Não estou irriquieto como estava quando cheguei em casa. Na verdade, não saí da frente do computador desde que cheguei. Creio que quando eu desligar, vou ter um colapso. Ou não. É tudo mesmo tão imprevisível.

Minha mãe está na sala, assistindo TV. De novo, sinto dentro de mim, desde antes da confirmação, uma vontade muito grande de contar a ela. Mas como não sei se isso é pra deixá-la a par ou se para afetá-la (sei lá porque) de alguma maneira.

Passei a tarde envolvido com o pensamento do suicídio. Sei que se eu me matar por conta disso, minha mãe não me perdoaria nunca. Acho que se eu contar sem me matar, ela não me perdoará, por mais que fique ao meu lado incondicionalmente. Fiz bobagem.

Penso assim: minha mãe nunca esteve nem muito por dentro do que é o mundo homossexual no qual vivo, e vivo pouco. Não tenho ideia do que ela acha. Só sei que me aceita e que NUNCA tocamos no assunto "mãe, eu sou gay". Ela sabe e só.

Agora, se ser um veado já é algo "underground", ser um veado contaminado com HIV deve ser o quê? Ainda posso me matar...

On the other hand...

Suicídio - durante o banho, pensei - passou a ser uma hipótese cogitável.

Lavoro

Trabalhar pela manhã foi bizarro.

Ontem, pela manhã, quando me ligaram, eu não tinha nenhum problema. Tudo estava hiper tranquilo.

Hoje, a certeza de que algo está acontecendo. E a tensão da espera de uma nova ligação que vai, muito provavelmente, confirmar o que eu não queria jamais saber.

Li alguns comentários que deixaram no post que criei no Orkut. A maioria é do tipo "sinto muito, mas... " sentenciando que sim, estou infectado. Outros, já dizem frases de consolo e apoio. Há ainda uma parcela boa que parece estar tão acostumada com o fato de serem soropositivos, que usam e abusam de piadas, sarcasmos e ironias. Chegarei a esse ponto? Creio que não. Ou espero que não.

Na hora do almoço, família à mesa. Almocei calado o tempo todo. Não tive coragem de olhar meu pai de frente, e minha mãe estava sentada ao meu lado. Quanto vão envelhecer quando eu contar? Tenho esse direito de entristecê-los do tanto que irei, caso conte? Digo, tenho esse direito só pra me sentir melhor? Só pra me sentir "apoiado pela minha família"?

Mais trabalho...

6h05

Acordei agora. Dormi mais ou menos. Apesar da noite de chuva mansa, o clima está pesado, quente.

Acordo consciente. Isso piora. Acordei com AIDS? É isso? Primeiro pensamento do dia. Antes seria "que merda? Já é hora de acordar?"

Tanto trabalho para hoje! Esse pensamento HIV não devia ser o pensamento que vai ocupar minha cabeça durante o dia. A concorrência vai ser braba.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Reza

Fui ao laboratório. Disseram que aquele aviso de "ligue para nós" ainda nem é referente à segunda, mas sim à primeira ¬¬ que rápidos, não? Ligam primeiro pra depois colocar no site, horas depois.

À noite fui rezar. Durante a "missa", eu estava irriquieto. Achei que fosse desmaiar porque não comi NADA o dia inteiro. Senti mal e pensei mil vezes em me levantar e ir embora. Resisti e fiquei até o final, quando comecei a me sentir melhor (foi uma palestra de tema interessante) em vários âmbitos. Mas vim correndo para casa ao final. Correndo mesmo. Nunca dirigi assim.

O tempo todo só consigo pensar em minha mãe. Será que é a primeira pessoa pra qual eu penso em contar? Será que inconscientemente para culpá-la (hein? como?!) e agredí-la, ou será que como prova e pedido de confiança? Só Freud...

De todo modo, decidi esperar pegar os resultados da checagem dupla. Daí vejo o que viro.

Site do Laboratório

Agora, quando digito login e senha no site do laboratório, aparece um pedido para ligar para o mesmo e falar com um dos doutores citados numa lista. :/

Telefonei, e deu ocupado umas vinte vezes. Mas vou falar hoje com eles. Precisa ser.

Mas parece que perdi a batalha, galera.

Já quero morrer.

Códigos, Números, Simbolos e Dados

Não quero ter que entender de números, códigos, taxas... minha vida já não era tranquila sem mais isso...

Como pude? Como pude...?

Riscado

Uma pessoa bacana que parece entender do riscado me disse, ao saber dos resultados que já pude pegar:

"E quanto à hepatite, pode ficar sossegado, vc está abaixo do cutoff no anti-HbsAg (ou sjea, não-reagente e não-imunizado) e anti-HCV tb está não-reagente.

Mas prepare-se para o resultado. Leia bastante aqui, nos sites oficiais, e etc.

E qualquer coisa grita. Só não fique noiado com isso."

Quero sumir, esvaziar a cabeça. Não tem como. Meu Deus, meu Deus... :/

Desassossego

Perdendo as contas de quantas vezes eu tento verificar se há atualização do site do laboratório com os resutados da última coleta.

Tentei cochilar, não consegui. Tenho trabalho a fazer, nem toquei. Não consigo me concentrar. Vão ser dois dias infernais! Vindo um "HIV positivo", então...

Vou tentar terminar os trabalhos, tenho prazos (curtos, diga-se de passagem).

Não é preconceito com a idéia de que eu possa ser soropositivo, nem com a rotina que terei que levar e me adaptar. Mas a minha cabeça vai me incomodar (e nem estou falando sobre consciência pesada ou algo do tipo), eu sei. Vai ser como decorar um quarto todo com mobília branca moderna e no canto ter sempre um criado mudo alaranjado, antiquérrimo.

Notícias Pesadas

Pesadas demais pra digerir. Preferi, então, nem almoçar. Não tive fome. Ou se há, não a sinto... só existe uma tontura. E o pensamento não sái disso. Estou preso na idéia de "E se eu tiver? O que vai ser?" Contarei a minha mãe? Sei que ela, mais que ninguém, vai cuidar de mim... mas não quero que ela tenha essa responsabilidade, esse peso, essa decepção.

Hoje, logo pela manhã, me ligaram. Não pude atender, estava no serviço, mas intui que fosse do laboratório, uma vez que os exames que fiz na sexta-feira de manhã ainda não estavam com resultados disponíveis na internet. Na primeira folguinha que tive, liguei para o tal número: "Laboratório, bom dia!" - desliguei! Putz...

Assim que imaginei todas as coisas que poderiam me dizer, retornei a ligação. A atendente, hesitante, disse que não havia registro de ligação feita para o meu número, que eu devia então aguardar novo contato - ou seja, ela não tinha a competência para dar qualquer notícia pesada que fosse. E isso bastou para me deixa atônito. Mal consegui terminar as obrigações do serviço.

Quando pude, 1h depois, fugi do serviço e, quase chegando em casa, recebo outra ligação. O cara do laboratório diz que meus exames para Hepatite precisavam ser refeitos, de acordo com o que manda a lei "não sei das quantas". Perguntei "e o HIV?" Ele diz "olha, essas coisas a gente não passa por telefone". :/

Putaquepariu! Putaquepariu! Putaquepariu!... Fui lá servir mais do meu sangue para eles. Na cabeça, a idéia de que não fiz sexo sem camisinha desde meu último exame. Por "sexo" entenda-se "penetração". Oral fiz. Mixed emotions... e tonturas mil.

O exame para Sífilis foi liberado, esse deu não-reagente. Básico. Mas eu estava torcendo para que o de HIV estivesse lá, liberadinho, não-reagente...

Durante a coleta, acho que a enfermeira percebeu meu estado tenso (e deve ter lido "reconvocação" na minha ficha) e já sacou a coisa toda. Fez brincadeiras pra me tranquilizar. Sorri vazio e brinquei de volta. Porque parece, o tempo todo, que estou assistindo a um filme sobre a vida de alguém.

Algo idiota: não me sinto com AIDS. No fundo quero acreditar que eu, por algum motivo místico qualquer, perceberia se sou soropositivo ou não.

Voltei para casa sem saber o que fazer. Há trabalho há ser feito, a rotina, óbvio. Mas não estou centrado em nada, nada que não seja a doença. Dai já criei um perfil fake no Orkut, entrei em comunidades, contei meu drama na esperança de que alguém diga "passei por essa 'reconvocação' e nem deu nada", li o drama dos outros.

O fato é que eu já conheço duas pessoas soropositivas, nem quero ser a terceira. Não quero ficar mais louco tentando imaginar com qual pessoa eu transei nos últimos seis meses. Não quero pirar total com datas marcadas, com frases que já perambulam pela minha cabeça como "ah, essa foto é de 2007, quando eu NÃO tinha HIV". Não quero ficar em conflito com "conto ou não conto?" em relação a minha família, amigos íntimos.

Torço por um "falso positivo" ou por um "você tem hepatite mas não tem HIV - tem que se cuidar e tals". Rezo.