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domingo, 19 de dezembro de 2010

Casa

Levantei paredes tantas
Tantas vezes
Cedi espaço
Dei lugar
Ali

Enquanto necessário
sustentei o lar
Providenciei
Mantive
Provi

Da casa cheia então
Me enxotaram
E sem retornar
Nem rescusar
Obedeci

As minhas paredes
Meu morar
O viver
Lugar
Perdi

Momo morto reina impávido
O carnaval sazonal
De ano inteiro
Festas lá
Eu aqui

sábado, 2 de outubro de 2010

My humps

Misturando tanto as várias versões de mim. Todos temos. Tantas são...

Sinto-me inseguro. Não em relação ao vírus. Nesse, penso todos os dias. Não mais o dia todo.

Em relação a tanto, menos ao vírus, pareço estar decidindo que quero que meu barco afunde, mesmo sem ninguém.

Vejo e vivo com a vida das pessoas ao meu redor. As cotidianas. Mais próximas, nem por isso mais íntimas.

Parece que, sem querer, sem perceber, fui fechando portas. Uma a uma. Não vou dizer que fiquei isolado num quartinho escuro. É mais como se eu tivesse ficado trancado do lado de fora de casa. Ou "das casas".

Não consigo mais ser quem eu era, e isso me frustra - ou me irrita, não sei. E nem consigo ser como eu quero.

E isso nem tem nada a ver com o vírus. (rs)

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Night Fever

Nem é a música dos Bee Gee's. Não sei se numa reação do psicológico à taxa de imunidade/carga viral do meu primeiro exame, ou por alguma coincidência irônica, estou com febre, "corpo mole", dores no corpo. Típica gripe. Pode?

Dai eu viajo. Imagino minha mãe correndo comigo, marmanjo, pra um hospital. Eu tendo que contar pro médico, na frente dela, que sou soropositivo. Ou mais, já imagino eu morrendo antes d'ela, ela tendo que enterrar o filho aidético.

Dai corto o drama. Pus uma comédia pra rolar no DVD. Não fosse o calor que a febre está me dando, tudo normal. E rio. Mas que se minha mãe tiver que enterrar um filho, que não seja por algo tão idiota quanto uma AIDS.

E sem mais pensamentos do tipo "ah, não, mas logo eu que fiz tudo certinho! Ninguém que eu conheço faz sexo oral com camisinha e mesmo assim eles não tem HIV!" com birra e beicinho.

domingo, 13 de dezembro de 2009

Dias Depois...

Acho que hoje, sei lá porquê, foi o pior dia.

Em casa me sinto um sujo. Há visitas, bebês, crianças, idosos. Não quero ficar perto. Não tem alegria hoje. Não sei o motivo. Não quero ficar perto.

Será que a possibilidade de um futuro "limpo", promissor, dessas crianças me incomodou? Será que sinto que desperdicei a parte que me cabia? Os idosos são a prova de que chegaram, eles e muitos outros, onde eu, provavelmente, não chegarei?

Se meus pais viverem muito, passarem dos 90 anos, eu terei quase 70. Ou teria.

Até eu morrer, terei que viver com um segredo espinhoso, feio, sujo. Os estigmas de um aidético. Pra onde eu varro isso aqui dentro de casa, já que não posso me desfazer disso? Esconder... me tira o sono. Ter me tira o sono. E já havia outras coisas tantas e todas que me roubavam o sossego em doses fartas. Somam-se. Multiplicam-se. e Não divido com ninguém. (Sub)traio-me.

Torço por uma morte digna e justa antes do tempo que o vírus venha me tirar a vida. Não quero deixar a um vírus esse gosto.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Falso "Falso Positivo"

Às vezes me vem a idéia de que meu exame, mesmo após duas coletas, deu falso positivo.

Corri pra ler sobre a posibilidade e é quase inexistente. Western Blot não falha.

Talvez eu esteja ainda vivendo uma fase de negação.

Só sei que durante o dia alterno momentos de "daqui por diante vai ter que ser assim" e "Meu Deus, como vai ser minha vida agora?". Falta ânimo para tudo. E por mais que eu me encha de trabalho para manter a mente ocupada, basta eu olhar para alguém da minha família pra que na mesma hora eu me lembre que tenho AIDS (ok, ok... tenho HIV - eu sei bem a diferença entre ter AIDS e ter HIV).

Chega um dia em que, mesmo tomando remédios, já tratando, esse tipo de pensamento não tome conta de 90% do nosso dia?