segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Psico-logizando

Esse mês passado foi um terror em alguns aspectos e uma bênção em tantos outros.

A parte boa foi que reencontrei tanta gente que não via há tanto tempo, e nos divertimos tanto. Foi excelente.

O terror ficou por conta de uma descida rápida rumo à clássica depressão. Essa, aliás, nem me incomoda tanto. Mas a ideia fixa, a falta total de tranquilidade... Sabe aqueles momentos do dia que você para, fica olhando pela janela, para o tempo, para o nada, pensando em absolutamente... nada... pois é, não existem mais na minha vida.

Cara, como eu sinto saudades disso... ficar em algum lugar, com minha cabeça em outro lugar. Lunar. E nem se trata de drama, mas de controle da mente, do pensamento. O tal pensar não tem dono, não tem freio ou direção. Queria passar um dia inteiro, metade de um dia que fosse, com o pensamento vazio. E não me sentir inquieto, não me sentir intranquilo (essa palavra existe?).

Cansei de ficar querendo e já há um tempo estava correndo atrás de um acompanhamento psicológico. Rola um auto preconceito, por achar que é uma fraqueza, que eu teria a obrigação de saber lidar com tudo sozinho. Enfim... hoje, finalmente, conversei com um psicólogo.

Passei a manhã fazendo testes, completando questionários, conversando... e tenho que admitir que se fosse antigamente, eu teria adorado ser entrevistado. Agora não. Mas claro: tentei aproveitar cada minuto.

Tentei me desvencilhar do que já li e ouvi falar sobre testes psicológicos. Não fiz desenho de casinha ou pessoa lembrando disso ou daquilo. E já pude perceber, mesmo que seja num primeiro contato, uma crítica sutil rsrsrs

Eu queria ser com desconhecidos da mesma forma que eu sou no trabalho, ou com amigos íntimos, ou com familiares. Acho que as pessoas se "amarrariam" em mim. Acho que assim, de primeira, ninguém dá muito por muito. E talvez nem devam. Talvez nem valha. Ninguém vale. Mas gosto também de como vou (vamos) crescendo com o tempo na vida das pessoas. Parece que agrado, vide a quantidade de amigos e a duração das amizades que tenho. Tudo muito.

Acho engraçado também porque eu sei que ali, no primeiro papo, eu tímido, contido... é tão oposto ao que muita gente acha de mim, pelo que passo. Fim de consulta. =D

Ficou que o não falar sobre o HIV com ninguém, me deprime. Eis-me aqui. Alguém de novo? Se não, comigo mesmo não adianta. Hoje houve progresso.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Same old

Conheci um cara muito interessante.

Primeiro pensamento: e agora?

Ele me falou dos planos dele, são tantos. Eu nem nunca tive plano algum. Vai que eu estrago esses planos passando essa merda pra ele? Vai que a gente começa algo "sério", vou contar? Como vou passar os dias escondendo algo tão forte? E quando dormirmos fora, vou viver a mentira de que os remédios são vitaminas?

Vamos ver... vamos ver...

domingo, 26 de junho de 2011

O que sou (?)

Sem mais aqueles efeitos colaterais horrendos. Dormindo tranquilamente, e já abandonei o comprimido que eu estava tomando para induzir sono.

Meu infectologista riu da minha cara quando eu disse que estou me sentindo "lipodistrófico", garantindo (ele) que a maneira a qual comecei minha medicação, a época, meu tipo físico, estilo de vida... enfim, tanta coisa me exclui do que se considera "típica 'vítima' de lipodistrofia" que eu devia me concentrar mais em viver a minha realidade do que ansear por uma fantasia aterrorizante. Concordei, lógico.

Agora, é levar a pontualidade dos remédios a sério e torcer para não ter mais surpresas ou adaptações. E viva a tranquilidade.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Cercado

O principal remédio que tomo veio diferente dessa vez. Não me lembro se já comentei a respeito disso aqui anteriormente. Enfim, tenho sofrido efeitos adversos terríveis com essa mudança. O lote anterior, de outra marca/empressa fabricante, não me causava nada.

Tontura, vertigem, cansaço extremo, dores de cabeça, depressão extrema, confusão leve, dificuldade de me recordar de fatos recentes... enfim... toda a gama de loucuras e maluquices às quais eu antes sequer sabia que existiam... mentira, sabia porque lia a respeito, mas me achava sortudo por não estar nos 40% de usuários do medicamento que sofrem esses efeitos.

Sei que há outros remédios que podem substituir esse ao qual estou (sem sucesso) tentando me adaptar há 15 dias. Mas perdem em praticidade (esse é dose única, à noite - o outro, salvo engano, duas vezes ao dia) e os efeitos adversos a longo prazo (dos outros) tendem a ser mais severos, pelo que li.

Sim, igual a qualquer outro soropositivo, morro de medo de lipodistrofia/lipoatrofia...

Meu último exame veio com uma leve melhora no nível CD4... a qual achei muito sútil. Completo 5 meses utilizando a medicação e confesso que eu esperava uma melhor muito mais notável.

Enfim, temo mudar de remédio, e nem cogito ficar sem tomar algum. De todo modo... está impossível aguentar o quadro psicológico que esse remédio tem me imposto. Beirando a paranóia. Queria não estar precisando de remédio algum, claro.

Novamente, saudades do lote anterior, onde eu não sentia efeito algum... e vamos que vamos, torcendo por melhorias.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Chacoalhando o barquinho

Meses de tranquilidade, eis que algo chega pra interromper: efeitos colaterais fortíssimos do remédio?

Ontem peguei mais comprimidos para os próximos dois meses. A noite de ontem para hoje e essa madrugada tem sido terríveis! Agonia, sensação de mal estar, desespero, angústia, pânico, ansiedade. O rol dos maleficios que a Igreja Universal se propõe a curar em seus "desencapeteamentos".

Justo no feriado duplo? Deus, que inquietação. Isso passa? E por que só agora, depois de meses com o mesmo remédio? Estranhíssimo, no mínimo.

Vou tentar, durante o dia, mesmo sendo feriado, contato com o infectologista e vero que pode ser. Todo modo, percebi que os comprimidos estão com cores e tamanhos diferentes dos de costume. Será algo? Mudança de fábrica? O princípio ativo não é o que interessa? Enfim. Cenas dos próximos capítulos.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Quem é?

HIV.

As outras coisas todas parecem tão mais importantes... e os remédios, não para essas, mas para o HIV, já é tão fácil, simples e automático...

As outras cousas todas, que as pessoas às vezes sentem um prazer mórbido² e doentio em infligir, talvez essas sim, cura de difícil obtenção.

O mundo, descoberta recente, não é mesmo redondo. Uns de nós é que acham que são. Perfeitas, nem. Redondamente enganadas acerca de si mesmas e dos umbigos dos outros.

Desenganado por um médico, pelo espelho, pelos risos, e por isso só. O resto todo é mesmo ilusão.

sábado, 19 de março de 2011

sexta-feira, 11 de março de 2011

Deep Thoughts (interna)

Fui comprar uns pães de queijo, especialidade de Minas. Balconista simpático dando mais atenção do que eu esperava. Fiquei lisonjeado e envergonhado, como sempre quando estou numa situação dessas sem ninguém por perto, e me dirigi até o caixa para pagar, cabeça baixa.

Foi só sair do recinto, caminhar pela rua, e meu pensamento "não posso nem pensar em tentar algo com o balconista gatão... vai que eu contamino ele" :/ Me desestrutura saber que eu tenho esse tipo de pensamento. Por mais que de fato seja um fato. Tenho que me preocupar por mim e pelos outros. Não que eu vá viver em torno disso, desse medo, dessa constante vigília.

Não posso negar também que eu tenho transado cada vez menos, conhecido cada vez menos pessoas, me interessado por sexo (e por pessoas para isso ou algo mais) cada vez menos também. Sei lá se é por ter, inconscientemente, repriorizado isso tudo em outra sequência...

Estou no banco de reservas. Não sei mais, porém, se quero voltar a jogar. Ou quero, sim. Mas o jogo não me interessa, ou o resultado.

Eu ambiciono pela cura muito mais pra me tranquilizar pelo que poderia acontecer com os outros, pelo fato de estar com o vírus ser um motivo pra me preocupar em me envolver (ou não me envolver) do que pelos remédios e todo o resto.

No mais... sem mais. Ou todo dia tem sido cada dia.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Falta de continuidade

Às vezes cansa a falta de continuidade das coisas, ela disse.

E como cansa.

Em quase 60 dias de medicação, só houve uma noite em que não tomei os remédios: saí e, imprevisto, não pude dormir em casa. Minha consciência ficou do tamanho de um elefante gordo.

Além, só o pensamento de "que saco!" quando estou me dando bem com alguém.

O resto, nem tem.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

O que será?

Ainda aliviado por não ter sofrido efeitos colaterais imediatos. Nada de sonhos, alucinações, vertigens, náuseas, urticárias, ínguas, nada.

Dizem que estou mais magro, mas voto que é consequência da minha completa falta de rotina alimentar saudável dos últimos meses. Aliás, desde que descoberta a minha sorologia, não tenho conseguido manter uma dieta constante. Muito por estar ainda (sim, ainda) me adaptando à ideia. Preciso, não só nesse sentido, viver uma vida normal, sim, mas não mais como antes, completa despreocupação.

Há que se vigiar e registrar taxas sanguíneas, calóricas, e sei lá mais quantos dados que vão formar meu histórico de convivência com o vírus. Espero que meu organismo continue (re)agindo como parece estar: como se nada estivesse acontecendo. Digo, fora o fato de que toda noite sem falta e pontualmente engulo comprimidos, nada é diferente de quando eu não tinha o vírus.

Quando transo com um "ficante", eu temo pelo cara. Por mais que eu use preservativos, eu me sinto responsável e, numa crise de paranóia, já fico imaginando se o cara tem ou terá ou teria estrutura (amplos sentidos) para segurar a barra, como ele reagiria e tudo mais se ele se descobrisse soropositivo.

Eu às vezes ainda fico meio deprimido quando me lembro que mesmo usando preservativos, me contaminei de alguma forma. E não suportaria bem saber que eu teria contaminado alguém, mesmo que eu não "tivesse culpa" por isso.

Quero todos bem.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Sagarana

Sem mais efeitos imediatos do remédio.

Não sinto mais sono excessivo. Não sinto mais o "barato" que bateu nas primeiras semanas. E eu espero que assim sigam os dias todos daqui para frente. Até uma medicação mais moderna ainda. Até a cura invisível, talvez.

No mais, tenho sido feliz, acho. Quase normal. E nunca esqueci de tomar o remédio. Por mais que ainda não tenha um mês.

Voltando a mim.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Jingletown

O amanhecer do resto das nossas vidas? Nunca se sabe.

Um ano de descoberta do vírus que eu trato como se não o possuísse. E dizem que isso é até uma técnica para que ela não se desenvolva. Se for, estou garantido. Se não, iludido.

Encerrávamos o ano de 2009 com o vírus ainda como novidade para o meu corpo, meu organismo, minha cabeça, minha visão curtíssima. Encerramos 2010 com a medicação como novidade para o vírus que era novidade há um ano.

Como fecharemos 2011?

Espero que sem colaterais, sem problemas relacionados a isso. Que em 2011 eu possa, não só pela minha distração usual, não me recordar que eu sou soropositivo. Não por falta de engajamento, não por não me assumir perante meu caráter. Mais por uma questão de saúde no sentido amplo essa palavra pode abarcar.

A todos (ou algum) que passarem por aqui, hoje, alegrias! Saúde!

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Colats = Zero

Sem efeitos colaterais imediatos. Amém.

Muito sono pela tarde. Mas poderia justificar isso com meu horário notivago de recesso de final de ano.

O fato é que os temidos pesadelos, sonhos amalucadamente vividos, ânsias, náuseas, tonturas... nada disso aconteceu. Tonturas no primeiro dia, acompanhado de uma sensação de bem estar quase dopante. Claro que, mesmo que eu nem estivesse esperando uma sensação ruim (e eu acho que estava) eu adorei. (rs)

Tenho lido, escrevido, rido, vivido da mesma forma imbecil que fazia um dia antes de começar a medicação. Sem alterações de humor, sem ideias extraordinarias, sem acessos, sem bloqueios. Às vezes uma noção de que as 24h de um dia passam mais rápido do que eu queria, ou do que eu possa e consiga perceber. E isso no segundo e terceiro dia. Não mais.

Hoje li a matéria da revista Época com a capa sobre o cara que se curou após um transplante de medula. Nada que me animasse, até porque as especulações lá são tão mornas quanto minhas frias projeções.

Que o medicamento continue assim, manso.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Sem olhar para trás

Recebi os remedinhos essa manhã com a ansiedade de uma criança que vai ganhar um brinquedo novo. Fiquei olhando praqueles frascos e pensando em nada. Dai abri. Tava lá, do jeito que o médico falou. As cores, as quantidades, tamanhos. As bulas parecem mapas imensos!

Agora, depois de um dia comum, estou na expectativa. Será que terei as temidas sensações? Sobreriverei incólume à primeira noite? Como estarei amanhã, ante-véspera de natal?

Vou separar as doses, deixar o estômago vazio, engolir uma ave maria e acordar amanhã.

"Coloquei meu futuro dentro de mim: um futuro lindo, branco e sem fim. Cheio de esperança."

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Antabuse Molotov

Essa semana começo. Ainda sem saber bem o que penso, o que sinto a respeito disso.

Não li e nem pretendo buscar relatos na internet sobre efeitos, defeitos e desfeitos da medicação.

Veja só, todas as vezes que o médico mencionava a palavra coquetel, ele baixava bastante a voz. Os pacientes na sala de espera.

Todo modo, recebi a notícia com uma tentativa otimista e fraco bom humor.

E vamos viver.

domingo, 19 de dezembro de 2010

Casa

Levantei paredes tantas
Tantas vezes
Cedi espaço
Dei lugar
Ali

Enquanto necessário
sustentei o lar
Providenciei
Mantive
Provi

Da casa cheia então
Me enxotaram
E sem retornar
Nem rescusar
Obedeci

As minhas paredes
Meu morar
O viver
Lugar
Perdi

Momo morto reina impávido
O carnaval sazonal
De ano inteiro
Festas lá
Eu aqui

Lane

Algo me faz lembrar do HIV todos os dias. Dai tento levar com bom humor, como se fosse uma brincadeira de "vamos ver como é a vida de um soropositivo". Eu em disfarce.

Vejo, abismado, a percepção que as pessoas quase todas têm do que vem a ser um soropositivo, um aidético. Tanto preconceito. É absurdo. Compreensivelmente absurdo. Elas conhecem gente de todo tipo. Gays, idosos, crianças, pessoas com câncer, paraplégicos... "aidéticos", não. Assim supõem, claro.

Somos os tipos de pessoas que as mães não querem próximos de seus filhos. Que as pessoas se recusariam veementemente a beijar na boca, quiçá um aperto de mão rápido. E muita gente, mas muita mesmo, se pudesse, criaria um incinerador tamanho jumbo, e nos queimaria todos, um a um.

Estive visitando o site do governo, moderninho até, e vi o material da nova campanha contra o preconceito. Não é de dar dó? Digo, não a campanha, que essa é bem intencionada e de uma assepsia calorosa. Mas o efeito, as consequências.

Tá certo, deixo o pessimismo de lado. Faz bem crer que ter AIDS é aceitável. De fato, num aspecto, é desimportante. Nos outros quase todos, é meio desesperador imaginar um sem-fim de portas fechadas.

Dane-se, claro. Mas dá sim saudades dos dias em que não se tinha preocupações com exames trimestrais, taxas (sanguíneas e custos de exames), horários com médico, e etc, etc, etc.

Nota mental: tem sido complicado relaxar e gozar. Sempre preocupado se não vou passar o vírus adiante.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Assim eu li

Em algum lugar, durante a semana, li assim e pesquisei. "It's sad being poisonous".

Vai chegando um tempo em que bate forte uma vontade de dizer de novo "por quê?", mas não na base diária.

Nem tudo são dias cinzas. Tive, recentemente, o "momento da minha vida", culturalmente falando. E com muita diversão. Revi pessoas que não via há um bom tempo e conheci mais umas. (rs) Nada do que poderia ser.

Acho estranho como tenho me isolado (repetitivo). Mas esse isolamento, que deve durar ad æternum, tem um lado positivo. Talvez eu entenda melhor o processo de isolamento dos outros.

Nada é culpa do HIV.

sábado, 2 de outubro de 2010

My humps

Misturando tanto as várias versões de mim. Todos temos. Tantas são...

Sinto-me inseguro. Não em relação ao vírus. Nesse, penso todos os dias. Não mais o dia todo.

Em relação a tanto, menos ao vírus, pareço estar decidindo que quero que meu barco afunde, mesmo sem ninguém.

Vejo e vivo com a vida das pessoas ao meu redor. As cotidianas. Mais próximas, nem por isso mais íntimas.

Parece que, sem querer, sem perceber, fui fechando portas. Uma a uma. Não vou dizer que fiquei isolado num quartinho escuro. É mais como se eu tivesse ficado trancado do lado de fora de casa. Ou "das casas".

Não consigo mais ser quem eu era, e isso me frustra - ou me irrita, não sei. E nem consigo ser como eu quero.

E isso nem tem nada a ver com o vírus. (rs)

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Mar asmo

Uma onda de calor paira sobre o país inteiro. E parece então que os dias passam lentíssimos, as horas correm para trás, e tudo é um longo e exaustivo teste de paciência.

A solução é rir. Rir de graça. De tudo. De si mesmo. Até porque as montanhas não vão se abrir, e mesmo que se abrissem, as nuvens nem iriam chegar.

Sorvetes. Aquelas casquinhas anos 80.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

A cara no trabalho

Trabalhando a todo vapor. Chegando cedo, saindo tarde. O emprego virou o 1° lar. A casa, o colchão, o repouso, e, por vezes, uma refeição.

Eu jurava que ao ter HIV, eu priorizaria o viver, caminharia por uma praia no final da tarde, rascunhando minha futura biografia e desenhando gaivotas e coqueiros enquanto beberia uma água de coco... passando os pés de leve na areia molhada. QUAL O QUÊ...! (rs)

A vida tem sido uma correria, uma insanidade, e a isso chamamos de Terapia Ocupacional de Cada Dia.

De que adianta ler tantos textos que se baseam na letra de Epitáfio dos Titãs? Devia ter feito isso, devia ter feito aquilo outro... e não mudar nada, de fato?

Vambora dar um tchau para o patrão, fazer as malas e começar uma fase inédita? Nos textos parece tão fácil. O que falta? Coragem, Clarice. Coragem.

E mais um combo pipoca + refri enquanto assisto a mais um filme empolgante, olhos arregalados, embasbacado a delirar "uau! eu um dia faço isso".

domingo, 15 de agosto de 2010

Cansado, solitário e sorrindo

Sem (mais) dramas. É que ando sem muita paciência com o assunto. Porque tem sido como ter um irmão siamês que só fala de um mesmo assunto toda vez que você olha pro lado. E também porque minha meta de vida nunca foi enriquecer, viver luxuosamente ou algo parecido. Minha meta era simplificar o tal viver.

De todo modo, a carruagem segue, e os cães ladram. Eu sorrio porque estou vivo, ainda não comecei a tomar osARV's (e quando começar, vai ter que ser bom: garantirão minha vida), estou cercado de muitas pessoas que amo e algumas que me amam. Só que elas nem sabem, então quando eu fico com o cérebro/sentimentos/pensamentos cansados, eu fico meio irritado, sem muita paciência. Devem achar que estou louco, ou que eu mudei.

E, realmente, sou outro.

..:: ouvindo Pixies e Iron Maiden ::.. Pulando bastante pela casa inteira (rs)

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Assim

Não que eu ache que eu tenha sido vítima. Não mais acho. Mas eu acho esquisito... acho tudo muito esquisito...

terça-feira, 3 de agosto de 2010

(H)À sinceridade

Ao longo desses meses, conheci algumas pessoas. Digo, "caras". E sempre quando algum deles se anima ou tenta me iludir com algo que demonstre afeição, uma aproximação afetiva-emocional maior, eu travo. Instantaneamente me vem a lembrança de que estou com HIV. Paro e penso "porra, esse cara fantástico me aparece só agora???" rsrsrs

Não precisava mas vou mencionar que, logo em seguida, eu penso em mil táticas pra sumir do mapa. Se a coisa evolui, qualquer hora rola sexo e, mesmo que a gente vá com certeza usar preservativo, se eu passo o vírus pra alguém, o que restou do meu mundo em reconstrução vira pó. ¬¬ affs

Fora a coisa toda do segredo. Caraleo, como isso me consome. Se eu me envolver com algum desses caras, e ele me perguntar se está tudo bem eu vou dizer que sim. Mas no fundo estarei gritando em silêncio que não está tudo tão bem assim, que estou com o vírus mais temido do mundo passeando e se multiplicando pelas minhas veias e fibras. Não conseguiria mentir, acho.

Passei a vida inteira tentando ser o mais sincero, aberto, franco e honesto o possível :) . E não é que agora, para me preservar, o jeito vai ser não me envolver. Não vou conseguir lidar comigo mesmo. Namorar um cara e só no meio da coisa toda, passados dias já, contar a ele (e ele literalmente me matar) é muito pra minha vontade quase nata de ser sincero. ;)

Enquanto escrevo aqui, recebo um sms com frases espertas. Ele quer se aproximar. Meus ossos doem. Você entende?

domingo, 1 de agosto de 2010

Pause

Com muitas ideias e vontade de postar, mas sempre deixando de lado. Tentando levar uma vida e um pensamento "normal". Dai, não seria normal vir e lamentar (ou o oposto disso) sobre coisas que sequer estão acontecendo. Porque desde a descoberta da minha sorologia, nada mudou, nem muda(rá). A vida e tudo dentro ou fora dela segue o mesmo caminho.

Talvez quem ler isso, ou eu mesmo, vá pensar que é uma tática de sobrevivência, de aceitação, um enganar a mim mesmo. Talvez seja. Até porque nem eu mesmo sei o quanto disso é verdade.

As vidas seguem os mesmos caminhos. O mundo. A comida e a bebida que eu degusto têm o mesmo gosto (ou falta de). Comédias bobas me fazem rir (ou ficar irritado). E ficar isolado é uma maneira de estar em contato de novo com um grande número de pessoas.

Volta e meia eu fecho os meus olhos e volto ao tempo em que eu era adolescente. Tinha 14, 15, 16 anos. Não conhecia nenhuma pessoa que tivesse HIV. Achava, inclusive (e na época devia ser) um tanto quanto apocalíptico viver soropositivamente. Não cogitava o vírus de forma alguma, mesmo quando lia alguma reportagem a respeito. E era virgem.

Hoje, não só porque já conhecia algumas pessoas hiv+, mas também devido ao que abarco, é toda uma outra visão. Mas me irrita o pouquinho de piedade que às vezes tenho de mim mesmo, e não tenho para com as outras pessoas que conheço e têm o vírus. Não precisamos de piedade. Apoio e continuidade, sim.

Os remédios são agressivos, e a rotina de uma posologia diária, doença crônica, desgasta bastante. Mas é um viver. E nem sei se devemos aguardar uma cura. Eu digo que não deve haver uma espera, um "aguardar". Sabe-se lá quanto tempo de vida qualquer um tem até que a morte chegue. Independente da sorologia. Ninguém nunca aguarda nada para começar (ou continuar) a viver.

Um grande amigo que é mais inteligente, mais bonito e mais jovem que eu e já está na rotina dos remédios, está vivendo. Eu com toda minha suposta rusticidade e imbecilidade talvez tenha a mesma sorte.

E viva.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Stigmas

Garganta infeccionada, febre... antes eu pensaria que era apenas mais um algo qualquer passageiro, fruto do estresse. Agora, fico alerta. Será? - penso. Ou então fico imaginando que daqui a um tempo, quando um sintoma simples assim aparecer, vou pirar tentando saber se é só uma gripe imbecil ou se é algo que vai me derrubar.

Durante o dia, eu penso um milhão de coisas alegres, positivas (sem trocadilho) pra escrever aqui, mas quando chega o momento de pensar no tal do vírus, eu me perco. Só sei que é incrível o número de vezes que eu paro e penso "puts, eu estou com AIDS!". A sensação de que minha ficha não caiu até agora.

Mas creio que em breve, com um pouco mais de tempo pra mim mesmo, talvez eu consiga, quem sabe, assimilar e apaziguar. Não há tempo a perder. É correr pra ajudar outras e outros tantos.

Que se dane a Copa. Eu quero a cura.

domingo, 30 de maio de 2010

Face 2 Face

Encarar o HIV em mim tem sido um problema. Se interrompo uma atividade rotineira durante o dia e me lembro que tenho o vírus, sinto como se fosse a primeira vez que eu me desse conta de tal fato. Bizarro, não? Negação? Sei lá. O susto que tomo em cada uma das 1.942 vezes que "fico sabendo" que estou com HIV num período de 24h tende a me cansar.

Por falar em fatos estranhos, essa noite tive um sonho no mínimo perturbador. Nele, meu pai, não sei como, descobria que sou soropositivo e com isso a tranquilidade familiar (e a minha suposta paz pessoal) se tornava uma coisa qualquer que beirava o infernal.

Sonhos à parte, recentemente tomei conhecimento de que um antigo rolinho também está com o vírus. Fiquei uns 5 anos sem vê-lo até que, num show de MPB no ano passado, por um acaso, nos encontramos. Eu não o reconhecí. Será que ele mudou tanto por causa dos remédios? Por causa do vírus?

O fato é que, com mais esse, são três pessoas que eu conheço pessoalmente e que estão na mesma condição que eu. Fico, obviamente, imaginando quantas mais das pessoas próximas não estão também assim. Real: somos todos homossexuais que levavam uma vida sexual divertida e interessante, por mais protegida e segura que pretendesse ser. Engrossamos estatísticas.

Há anos não se fala em grupo de risco, mas o tal comportamento de risco parece ser ainda maior no nosso grupo. Por mais que eu ainda esteja em dúvida se a "culpa" da coisa toda foi de uma afta ou de alguma ferida em minha mucosa bucal. E não é que eu me lembro mesmo de aftas? :/

Esperando o resultado de (mais) uns exames. Tudo leva tempo. Dai espero vir aqui e postar sobre temas mais amenos e positivos. Sem trocadilho.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Denver

Ainda devendo um exame. Mas a coleta só é feita num horário estritamente preciso, justo quando eu menos posso. Logo arranjo tempo.

Essa rotina de exames, pedidos de exames, laboratório, atendentes que não têm preparo para agir com naturalidade ao lidar com pacientes com HIV (por mais que o vírus já esteja por ai há mais de 20 anos), tudo isso é exaustivo. Impossível manter um sorriso numa fila, numa sala de espera, num consultório. Mas é pra manter a saúde, a vida. Sobrevive-se.

E sei também que nem posso dar um pio sequer. Não ainda: vai chegar o momento da medicação, e nem faço ideia de como meu corpo, meu organismo vai reagir. Ou seja, por enquanto as coisas estão sim muito boas.

Há ainda um pouco de paranóia. Peguei uma gripe leve esses dias e já fiquei imaginando o quanto dela não era por causa de baixa imunidade ou se havia alguma relação com o HIV. Daí, dias depois, um furúnculo na perna. Mais sinais de baixa imunidade?

Preguiçoso e ansioso pela próxima consulta com o infectologista.

sábado, 1 de maio de 2010

Nova Perspectiva

Vida corrida demais. E segundos exames. Peguei os resultados mas ainda não os levei ao infectologista. Alguns dados diferem levemente dos primeiros exames. Mas não imagino, devido aos números, terminologias e minha preguiça, se essa diferença é normal, boa ou ruim.

Passei uns dias meio pra baixo, imaginando que "vou morrer mesmo, então foda-se" e me encostando nessa desculpa pra simplesmente não me importar com uma série de fatos cotidianos que merecem sim a minha atenção.

Ok, todos vamos morrer um dia, com certeza, e ninguém deixa de cumprir com suas obrigações por conta disso (alguns deixam por motivos mais imbecis ainda ¬¬). Então voltei ao meu quase estado real/inconstante de sempre.

Mais recentemente, conheci um carinha que me parece ser hiper gente boa. PORÉM (comigo sempre parece ter um porém) quando estou com ele, só conversando mesmo porque ainda nem cogitamos trepar, não consigo parar de pensar que tenho HIV, que vou morrer primeiro que ele, que pode ser que eu o contamine e ele, com razão, passe a me odiar, a querer me matar! AFF!

E enquanto isso, enquanto eu fito o horizonte e tenho essa bad trip viral, ele está lá numa boa, falando sobre como foi o dia dele, numa tranquilidade que eu invejo por não ter mais. Ou nunca ter tido. Nem acho que terei.

Claro que meu dispositivo de defesa, que funciona para mim e por ele, já está ativado: inconscientemente comecei a procurar defeitos na coisa toda. Ele joga papel de bala, chiclete mascado, e outros lixinhos na rua. Ele tem preconceitos demais. Ele... ele... sei lá. Não quero encontrar alguém que um dia talvez me peça um exame ou veja meus remédios (que terei de tomar) e me pergunte do que se trata. Não quero dizer "tenho HIV" e ver a pessoa sair correndo depois de cuspir na minha cara e dizer "se eu tiver pego de você, você é um homem morto!"

Os remédios. Li de gente que tomou imediatamente após saber da condição H+. Li de gente que está há dois, três anos sem nunca ter precisado. Temo pelos efeitos colaterais, temo querer dar uma de Renato Manfredinni Júnior e simplesmente não tomar os medicamentos por escolha. Seria suícidio?

Requer pesquisa.

Obs: Tenho estado ausente de situações onde eu obrigatoriamente devia estar atuante. Tentando muito voltar a velha forma e retomar qualquer coisa. Juro que sim.

domingo, 11 de abril de 2010

O sorriso deles

Longo tempo sem escrever.

E então chegou a hora de fazer os exames. Penso no quanto vou gastar de novo. Penso em tudo e quanto isso vai custar pra mim psicologicamente. Mas, mais uma vez, essa é a vida agora.

Os dias tem passado rapidamente. Trabalhando demais e às vezes me espanto ao lembrar que tenho HIV. Penso "caralho, estou com AIDS!" como se eu não soubesse. Muito provavelmente porque ainda não estou na rotina medicamentosa (essa palavra existe?).

Nos últimos 30 dias eu conheci duas pessoas. Com ambos, muito desconforto antes, durante e depois da transa. É andar na corda bamba equilibrando um copo de ácido na cabeça. Por mais que tenha uma rede de segurança logo abaixo. Estou lá trepando com o cara mas pensando "não posso gozar na boca dele, não posso isso, tenho que tomar cuidado com aquilo". Um festival de preocupações que me fazer aproveitar pouco.

Por fim, não tive nada além de sexo e suposta amizade com nenhum dos dois. Sempre pensando que se aquele momento se extendesse por um mês, meses, um ano, eu não teria coragem de fazer de conta que não tenho o vírus. Obviamente não é a mesma coisa que se declarar cardíaco, diabético ou israelense. Imagine como esconder os remédios, quando eu tiver que tomá-los.

Fora a tendência que tenho a achar que esse rojão eu seguro, eles não. Penso que eles não tem estrutura psicológica, emocional, familiar, o que quer que seja. Arrogante eu, né? Como se eu fosse uma fortaleza superior. Ou como se essa situação não me desgastasse nem um pouco. Por mais que eu não admita.

Eu não quero sofrer com o HIV. Não sei se eu já comecei. Ainda tenho dado risada.