Mostrando postagens com marcador anal. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador anal. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 16 de março de 2020

Numb

Meu médico ainda é o mesmo. 

Os exames são feitos duas vezes por ano. Meu plano só não cobre um deles (a tal Vitamina D).

Até onde percebo, nenhum efeito colateral visível (lipoatrofia, lipodistrofia, envelhecimento precoce).

Ganhei peso. Talvez seja por causa da medicação. Talvez seja só a idade: dez anos se passaram desde a minha infecção pelo vírus.

Andei relendo hoje alguns dos meus primeiros relatos aqui. Perturbador. 

É engraçado o quanto a gente muda em um período de tempo tão grande. E foi bom ter mantido meus pensamentos escritos aqui. Minhas memórias.

Longe vai o tempo que o vírus era algo o qual eu me lembrava todos os dias. Agora, só me lembro quando tenho que ir ao médico ou buscar a medicação. Ou... quando o desgoverno Bolsonaro Nazista Bolsonarista fala ou faz alguma merda em relação às pessoas soropositivas. Quanto atraso...

Nesses dez anos, algum arrependimento quanto a tudo que passei? Alguns. Até hoje não tenho certeza de como fui contaminado. 

Eu não ficava com muitas pessoas. Se fosse pra eu apostar, diria que foi numa transa onde houve contato com alguma afta ou micro corte em minha boca. Eu estava neurótico e usando preservativo feito louco por conta de uma sífilis havia um ano.

Eu me arrependo também de ter visto necessidade de me abrir sobre minha sorologia com um namorado. Ele me "aceitou" e foi ótimo. Mas por mais que ele tenha prometido segredo, creio que ele contou para algumas pessoas e fico sempre suspeitando que falam sobre mim nas minhas costas. Incomoda um pouco. Quando alguém me rejeita gratuitamente nos Apps, fico pensando "será que tem algum boato a meu respeito por aí?".

 Hoje, eu não conto para ninguém. E se vierem me perguntar, eu nego. Não é da conta de ninguém. Não quero ninguém me tratando com deboche, ou condescendência, piedade, humilhação, paternalismo... enfim... Não quero falar sobre isso, dar lições nem servir de exemplo. Isso é tão "Na Real MTV - 1993".

Ouvi dizer que o Paciente de Londres é o segundo ser humano curado do HIV. Isso quer dizer que vai levar mais ou menos uns 50 anos para que a cura seja encontrada e disponibilizada, creio eu. Enquanto isso, aumenta exponencialmente a quantidade de jovens infectados no Brasil. Também, pudera: nunca tinha visto nesses anos todos tanta gente que pede/não se importa de transar sem preservativo. 'Tá uma coisa de louco.

Quando/como será que essa história acaba?

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Up Close to Personal

Certas situações são mesmo íntimas e pessoais. 

Meu último namorado ficou a par da minha sorologia. Tenho quase certeza, depois de quase um ano pós término do namoro, que ele contou para outra pessoa, que contou para outra pessoa, que contou para outra pessoa, que...

Recentemente, estive conhecendo um rapaz (não sei precisar com exatidão se estamos juntos ainda ou não após a décima briga em questão de meses - dessa vez, com afastamento). O fato é que ele deu indícios de que "ouviu dizer" que eu poderia "ter algo". Omito. Vou continuar omitindo.

Meu médico uma vez me disse "ninguém precisa saber". Às vezes, é melhor ouvir a voz da experiência do que aquela voz que te manda falar sobre tudo como prova de honestidade e confiança. Honestamente? Tenho tomado a medicação religiosamente. Carga viral indetectável. Usamos preservativos sempre. Não consigo achar, depois da última confissão frustrada, que valha a pena. 

"Ah, mas e a paz consigo mesmo?" Essa paz, meu irmão, ela se vai da pior maneira quando seu segredo que te rende olhares tortos, desemprego e isolamento é exposto para completos desconhecidos.

Vale mesmo a pena? Eis a questão: se conto agora, assusto o rapaz. Se conto e ele não se assusta, vai que o namoro dura mais um mês e ele resolve espalhar por aí? Se espero uns meses para contar, ele vai se sentir traído, iludido, sacaneado. Omitir e prevenir - até porque sei lá eu por onde esse cara anda quando não está comigo, mesmo dizendo ser fiel - parece mesmo ser a melhor pedida sempre. Independente da sorologia de quem quer que seja.

Imagino que os possíveis leitores desse blog devam estar pensando "nossa, que mudança em apenas 8 anos! Cadê aquele homem responsável e preocupado?". Está aqui. Preocupado com o que pode vir a ser dele daqui mais 8 anos, se depender da maldade alheia. 

Sei que devo agir honestamente independente de como os outros ajam. Por ora, essa é a melhor precaução para ambos. Ou quem mais cruzar caminho. Aliás, devia ser essa (e foi) desde sempre. Aconteceu, infelizmente.

Talvez amanhã eu esteja com outro pensamento. Ou outra pessoa. Ou outro eu.


domingo, 4 de setembro de 2016

Ground Control to Major Tom...

Os exames têm vindo normais. Algumas alterações no que eu creio serem sinais da idade. Sete anos se passaram desde que fui diagnosticado. É incrível como o tempo passa. E como eu achava que a cura já teria aparecido. Quão arrogante, não?

Nada de cura. A combinação de remédios que tomo ainda é a mesma. Meu médico está pensando em se aposentar. Todo ano, desde o ano que me descobri soropositivo, apareceram notícias de possível cura ou novos tratamentos revolucionários. Temo que não viveremos para ver.

Carga viral indetectável e saúde tranquila já bastam. Sem colaterais, o que é melhor. Ou talvez essa ansiedade e melancolia que às vezes atacam sejam efeitos. Nunca saberei.

domingo, 5 de junho de 2016

Retrocessos

Muita coisa aconteceu. O namoro, depois de pouco mais de um ano, terminou. Deu certo, mas terminamos. Claro que não foi um final agradável, mas sobrevivemos. Aparentemente, quanto a isso, estamos bem. Vamos bem.

A saúde tem me preocupado bastante. Eu sempre tive uma resistência gigantesca quanto a buscar ajuda médica. Muito pela preguiça que tenho por achar tudo extremamente burocrático: ligar, agendar, esperar a data, ir até o hospital, fornecer dados, esperar horas para se atendido, agendar data para exame, esperar data, ir até a clínica, fornecer dados, esperar para ser atendido, marcar data para pegar resultados... faço o que posso para passar longe dessa sequência.

Tenho sentido dores nos joelhos. A princípio, era apenas do joelho direito. Supus que fosse algo que tivesse a ver com má postura. Agora o joelho esquerdo também sente. E sempre que meu corpo avisa sobre qualquer dor ou algo diferente, temo que seja alguma resposta aos já seis anos de medicação ARV (Anti Retro Viral). Ou que seja o vírus mesmo.

Há, na internet, muitos relatos de gente que toma a medicação há décadas e não teve nenhum colateral. Por outro lado, sobram relatos de pessoas que perderam tanta qualidade de vida que chegaram a ficar cegos, imóveis, irreconhecíveis. Na base da sobrevida, mesmo.

Secretamente, tenho pavor das possibilidades todas. Fico em pânico só de pensar em lipodistrofia, lipoatrofia, neuropatia periférica, depressão, loucura, hepatite... enfim... são tantas coisas... dá medo.

Novamente, não que eu fosse invencível ou imune a tudo antes do HIV, apesar de arrogantemente termos quase sempre essa noção. Trata-se mesmo de saber que agora as chances são maiores, bem como minha ciência. Estou a par. Até demais.

Ah... eu tinha contado para meu namorado sobre a minha soropositividade. Creio que ele manterá segredo. É um aspecto tão íntimo quanto perigoso. Ele é inteligente e sabe que as pessoas podem ser bem cruéis e preconceituosas. 

Mas algo em relação a isso me deixa pensativo também. Será que contarei para mais alguém? Acho, de certa forma, que me expus "desnecessariamente" para ele, por um namoro que não durou meia década (como se a questão cronológica importasse). E ainda temos os amigos em comum. Vale? Não sei. Não sei me relacionar com alguém e não contar algo tão importante (se for um namoro). Vale? Não sei.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Vivendo (Por Amor?)

Estou namorando. É a primeira vez em muitos anos, então tem sido... diferente.

A princípio, apaixonadíssimo. Depois de confirmado o namoro, e não mais apenas uma atração, um mix de sensações inexplicáveis. Umas boas, outras nem tanto. Houve desejo, insegurança, estranhamento, cumplicidade... e, por ora, tem fluído. Estamos bem.

Falei pra ele a respeito da minha sorologia e... ele aceitou hiper bem. Mais do que eu poderia imaginar. Desnecessário frisar que toda e qualquer atividade sexual nossa é cautelosa, mas sem neura, sem pressão sem "cuidado com isso, cuidado com aquilo". A verdade é que TODO MUNDO tem que transar assim desde sempre. A diferença aqui é que sabemos que um de nós tem o vírus. Quantas vezes uma pessoa mantém relações com um(a) completo(a) desconhecido(a) sem saber da sorologia dessa pessoa? Prevenção é algo muito importante sempre.

Sou de uma época onde as pessoas com HIV morriam. Ou viviam muito mal. Muito ainda precisa mudar, em especial na questão social, de aceitação e acolhimento mesmo. Mas a visão do meu namorado representa uma transformação gigantesca, um salto entre gerações. Muito provavelmente, tenho mais preconceitos quanto a isso do que ele. Vi Cazuza, Freddi Mercury, Sandra Brea, Thales Pan Chacon, Renato Russo e outros tantos irem embora de forma dramática e dolorosa. Isso marcou uma geração com medo, repulsa, terror. Todas aquelas cenas de pessoas raquíticas agonizando em macas de hospital, isoladas, muitas vezes abandonadas pelos amigos e parentes.

Levo uma vida normal. Até demais. Tão normal que quase não falo sobre HIV/AIDS. Nem com meu namorado. O que falar? Nos primeiros dias ele ficava fiscalizando se eu tinha tomado os remédios na hora certa. Não havia necessidade. Hoje, mal tocamos no assunto. Não por incomodo, mas por que a naturalidade é tamanha, que não vira assunto. Não se faz presente.

O sentimento de amor tem sido um remédio a mais. Apesar de não estar aceitando da forma que queria. Acho que os tais efeitos colaterais psicológicos da medicação atrapalham um pouco. Nunca os havia percebido, mas agora cogito que sempre estiveram por perto. Alterações de humor, impaciência e uma certa angústia. Ou será que sou eu colocando a culpa nos remédios? Como saber?

Sei que estou disposto. Eu tou tentando e querendo muito fazer com que dê certo. E espero voltar em breve - mais frequentemente, inclusive - com boas notícias.

Fica o resumo: existem sim as boas pessoas dispostas a conviver intimamente com portadores do vírus HIV. Que seja amor.

Agradeço ao belo, jovem e inteligente rapaz que tem me mostrado cores que eu havia esquecido e imagens que eu não conhecia. Meus contornos, retas e linhas tortas são mais marcantes com você por perto.

domingo, 12 de outubro de 2014

As time goes by...

Tudo normal. Só ando dispensando a boa vontade excessiva alheia... Pois andam tentando resolver os problemas que não tenho, ou que não me incomodam.

No mais... são mesmo tantos compridos e remédios assim?

"Eu vou estar de melhor humor na terça-feira."